Reuso e Racionamento de Água

Entrevistamos Diorgio Rodrigues Filano, nosso aluno da 35ª turma do MBE, químico responsável por unidades de reuso e supervisor de operações.

Diorgio RodriguesSobre o aluno:
Nascimento: 21/05/1976
Turma: MBE 35
Formação: Bacharel em Química modalidade Tecnológica (Unigranrio) Licenciatura plena em Química.
Profissão: Químico responsável por unidades de reuso e supervisor de operações.

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Todo recurso natural é finito, a água potável, particularmente, é finita, mas renovável. Se explorada de forma desordenada, desequilibrada, em que a quantidade extraída supere a quantidade reposta, naturalmente teremos a escassez, o que estamos vendo no cenário atual. As maiores reservas de água doce superficiais, estão na Amazônia, o que logisticamente torna inviável, ou no melhor da hipóteses muito caro, fazer adutoras para trazer essa água para abastecer as regiões sudeste, centro-oeste e sul, que são as regiões onde está concentrada a maior parte da população do Brasil. As reservas subterrâneas, que compreendem aproximadamente 97,5% das nossas reservas de água doce, são de captação e tratamento onerosos e difíceis, pois estamos falando de água doce e não de água potável. O complexo aquífero Guarani, a maior reserva de água subterrânea do Brasil, que se estende até países como Argentina, Paraguai e Uruguai, já sente os efeitos da exploração desordenada. Na região de Araraquara, estudos geológicos indicam que seu nível baixou mais de 50 metros, efeito provocado pela exploração desordenada por poços profundos. A qualidade da água desse aquífero é heterogênea, sendo muito salobra em alguns pontos e com alto teor de sais como cloretos e dureza em outros, o que forçaria, em casos de exploração, para dessedentação, haver ainda tratamento para torná-la potável. Nesse sentido, entendo pela necessidade de nos preocuparmos com o uso racional desse recurso, criarmos estímulos para reaproveitamento de água de chuvas, águas cinzas, e incentivar os grandes consumidores a ter estações de reuso em seus empreendimentos, onde há equipamentos de grande consumo de água. São torres de resfriamento para sistemas de ar-condicionado central, caldeiras descargas de bacias sanitárias, que poderiam utilizar água não potável, pois seus fins não exigem que a água seja potável. As construções novas, em um crescimento considerável, já estão sendo feitas com estruturas para reaproveitamento de água, colocando em sua parte civil caixas individuais para descargas, cisternas individuais para captação de água de chuvas e reuso de efluentes. Racionalizar para não Racionar, essa seria a política e os ensinamentos adequados que deveríamos realmente nos atentar.
Hoje no Brasil conheço entre 4 e 5 empresas de expressão com alta tecnologia para efetuar reuso de efluentes. No Rio de Janeiro, especificamente, temos algumas empresas fazendo reuso e uma, que conheço, fazendo-o com uso de alta tecnologia. Lodos ativados, ultra filtração e osmose reversa, técnicas que geram um produto final de altíssima qualidade A produção de água de reuso é uma arte. É pegar um esgoto sanitário, e até mesmo industrial, e transformá-lo em água de qualidade para muitos usos que não o consumo humano (nossa legislação não permite). Em minha visão atual, esse processo de reuso é artesanal, pois a técnica para chegar a um produto final de excelente qualidade ainda se encontra em desenvolvimento. Hoje estamos em uma fase mais acelerada desse desenvolvimento no Brasil. Muitas empresas colocam em seu portfólio que fazem reuso de efluentes, mas o produto final fica a desejar em qualidade. O que realmente vejo é uma grande oportunidade se abrindo neste mercado, e uma tendência de que a engenharia, de modo geral, trabalhe mais fortemente para adequar as plantas de reuso, para que sejam mais estáveis e simples operacionalmente. A tendência é que os materiais empregados sejam mais baratos, e que tenham duração de médio a longo prazo. Fabricados no Brasil, já existem estudos dentro da própria UFRJ voltados para isso. Hoje, 80 a 90% desse material é importado, o que encarece demais os projetos. A meu ver, falta, em primeiro lugar, uma regulamentação técnica muito séria que não seja para uso político e que, após implantada, proporcione ao empresário, ao industrial, ao agronegócio, aos shoppings, que são partes muito interessadas nesse negócio e que fazem parte dos maiores consumidores de água tratada do país, incentivos para que tenham uma unidade de reuso em seus empreendimentos. Nesse ponto, deve entrar o lado político, com incentivos fiscais, selos verdes, créditos de carbono e diversos subsídios que dêem a determinados empreendimentos um status de preocupação com o meio ambiente e incentivos monetários em que ele poupe os recursos do planeta, sem prejudicar sua operação seu business core, e produza sem prejudicar sua qualidade e quantidade, mantendo os empregos das pessoas. Seria a política do ganha-ganha. Ninguém sai perdendo e o planeta agradece.
Particularmente, acho uma temeridade o governo impor aos habitantes racionamento de água para fins potáveis, regular banho, asseio pessoal, limpeza de roupas e louças. Ao meu ver, é um absurdo, pois a deficiência nessas utilizações da água pode causar um efeito colateral tão grave quanto doenças. Claro que não vamos desperdiçar água se ensaboando por dois, três minutos, com o chuveiro aberto, e nem ensaboar a louça de nossa casa com a torneira aberta. Os homens não podem fazer a barba deixando a água escorrer pelo ralo da pia de forma irracional, mas não se pode deixar de fazer essas tarefas do dia a dia por falta de água em pleno século XXI. A água para consumo residencial representa aproximadamente 6% de toda água tratada produzida. Não é esse, nem de longe, o principal de consumo de água no Brasil, nem o grande ‘vilão’ do desabastecimento. Deve haver, sim, educação de base que mostre para os adultos de amanhã a dificuldade de pegar uma água de um rio como o Rio Guandu e torná-la potável, para que assim eles tenham consciência de que lavar suas calçadas, seus carros, suas garagens, com essa água, é um desperdício de um recurso vital. Quando amadurecerem, essa parcela já estará doutrinada. Hoje mesmo você já percebe esses valores diferenciados nas crianças. Também fazem-se necessárias campanhas de peso de conscientização do uso racional para os cidadãos adultos que continuam praticando esses ‘crimes’ acima descritos, para que não precisem racionar, o que infelizmente já é prática hoje. Postos de gasolina com lava-jato são outra questão que deveria ser muito bem regulamentada e fiscalizada. Normalmente os poços não têm outorga e funcionam livremente, gastando esse recurso de forma abusiva. Um carro em um posto desses gasta, em média, 250 litros de água para limpeza (fonte: Sabesp). No entanto, os GRANDES desperdícios estão na distribuição dessa água, da concessionária até o cliente final, associados a furtos e vazamentos durante este percurso. Para se ter uma idéia, São Paulo perde, oficialmente, 26% da água que produz, mais de 1,5 bilhão de litros por dia. No Rio de Janeiro, a perda considerada oficial é de 32%; 1,4 bilhão de litros por dia. Tanto desperdício piora a qualidade do fornecimento e obriga o racionamento. Então volto à tese: racionalizar para não racionar.
O planeta é um ser vivo sofrendo graves ataques pela humanidade. A meu ver, o efeito é o mesmo quando vírus ou bactérias atacam o corpo humano. Seu organismo entra em desequilíbrio quando suas defesas estão mais fracas, e os sintomas começam a aparecer. Febre, dores no corpo, diarréias… O ser vivo chamado planeta Terra está passando por alguns sintomas em conseqüência do ataque dos ‘vírus e bactérias’ chamados seres humanos e o principal ataque está no pulmão do nosso planeta, que é o desmatamento descontrolado da Amazônia. Não sou especialista nesta área, mas, como leigo, acredito que esse desmatamento está reduzindo a umidade do ar de toda região norte, que acredito manter um equilíbrio com o restante do país, e impedindo a formação de nuvens que fomentem chuvas mais consistentes que reponham a água que esta sendo consumida nos nossos rios. Esse desequilíbrio leva a falta de chuvas no nosso país, especialmente no sudeste, onde há mais de 80 anos não enfrentamos uma estiagem tão violenta como esta. Podemos também perceber a conseqüência desse desequilíbrio em outros países como os EUA, cuja nevasca em Nova York foi a maior das últimas décadas. Em janeiro de 2015, fui para a região sul em férias e ao longo do caminho, o que pude presenciar foram represas com volumes de água muito abaixo do seu nível normal, começando por Piraí, São Paulo, chegando em Curitiba. todas as represas que vi estavam, a grosso modo, com 5, 6 metros abaixo do nível normal, em uma área enorme. Ao meu ver, se não houver chuvas substanciais nos locais certos, o volume dessas represas diminuirá cada vez mais. A longo prazo, acredito no equilíbrio que a natureza, o ser vivo chamado planeta Terra, fará para compensar essa seca e retornar a normalidade.
Aprender nunca é demais. Eu realmente não pensava em fazer uma pós graduação, estava sinceramente pensando em retornar para minha faculdade de engenharia de produção que tranquei há um ano. Enxergo nessa pós graduação, no MBE/Coppe, a possibilidade de dar upgrade no meu currículo em curto prazo, conhecer pessoas voltadas e dedicadas à área e, principalmente, expandir meus conhecimentos teóricos para a área de meio ambiente. Tenho algum conhecimento e experiência prática de uma área específica do todo (tratamento de águas e efluentes), que é o meio ambiente. Dou muita importância à prática, mas os alicerces são sempre o embasamento teórico, que ainda me faltava. Uma instituição como o MBE/Coppe me proporcionará alicerces seguros e de reconhecimento no mercado. Acredito também que, após o término da pós-graduação, terei mais conhecimento e embasamento prático-teórico para atuar em áreas nas quais possa ajudar a levar boas práticas ambientais a quem interessar, por meio de palestras, artigos, consultorias e, quem sabe, escrever um livro voltado para essa área.

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