Entrevista || Antropoceno, a época de impacto da humanidade sobre o planeta

Nosso ex-aluno, Alexandre Affonso, conta sua experiência na elaboração de seu TCC sobre o Antropoceno e uma sociedade ambientalmente consciente de si

 

ALEXANDRE AFFONSO

LinkedIn de Alexandre Affonso

Pergunta 1: Embora sua formação superior seja em Geologia, você age com grande interesse na área ambiental. Como se desenvolveu isso?

Resposta 1: Geologia na realidade é a minha primeira formação acadêmica. Para dizer bem a verdade, quando tinha 17 anos eu nem sabia da existência deste curso que eu escolhi fazer como consequência de um teste vocacional oferecido pelo colégio no qual eu cursava, que por uma imposição do destino pedia para enumerar em ordem de preferência 10 profissões extraídas de numa lista. Aconteceu que restava eu preencher a última opção e a descrição do curso de geologia tinha afinidade com o esporte que eu praticava na época, o alpinismo. Para minha surpresa o resultado vocacional no final indicou o curso de geologia como primeira opção, o que me fez buscar conhecer melhor e decidir prestar o vestibular para esse curso. No entanto, apesar do curso de geologia ter uma ligação direta com a ciência da natureza, se dedicando ao estudo dos diversos fenômenos físicos, químicos, biológicos, atmosféricos, entre outros, associados ao nosso sistema Terra, a minha conexão com a área ambiental não teve início durante o curso, eis que naquela época não existiam matérias de geologia focadas na área ambiental. Aconteceu que quando me formei estávamos passando uma crise econômica e política tão devastadora como a atual (passagem do mandato presidencial do Presidente Sarney para o Collor) e a minha opção após formado foi a de prestar um concurso para a Petrobras, no qual faríamos um mestrado em geofísica do petróleo com a previsão contratual de sermos efetivados após sua finalização, o que não veio a acontecer, já que o Presidente Collor impediu os já concursados de serem contratados em todas as empresas públicas. Porém, foi exatamente nessa época que vivi uma experiência que me conectou com as questões ambientais. Isso aconteceu durante a realização da ECO 92, que foi um momento mágico no Rio de Janeiro. Nesta época fui convidado para participar de um protesto ativista pelo Greenpeace, através de um amigo que coordenava essas ações no Brasil (Cícero Bernardes), experiência essa que me marcou edificando na minha personalidade a visão do envolvimento humanitário em busca de transparência e cobranças de soluções ambientais dos líderes mundiais. Em seguida fui trabalhar em uma multinacional, em projetos de pesquisa mineral que me proporcionaram trabalhar por quase dois anos em regiões remotas da floresta amazônica me colocando face a face com o problema do desmatamento da região, bem como com diversos outras questões resultantes dos descasos da política ambiental na região. Eram tempos difíceis, fiquei desempregado e fui trabalhar no escritório de advocacia do meu pai, quando decidi fazer o curso de direito. Passei vários anos afastado do que mais gostava até que me especializei em direito ambiental como uma forma de retornar a essa área, quando tive a oportunidade de trabalhar em empresas de consultorias em meio ambiente assumindo tanto as questões técnicas, como geólogo, como também as jurídicas, como consultor em direito ambiental, em vários processos de licenciamento ambiental na área de E&P, e outras fontes energéticas como hidroelétricas. Em 2008 fui convidado para trabalhar como consultor na engenharia da Petrobras, atendendo às demandas na área de contratos de construção e montagem de plataformas, o que mais uma vez me distanciou um pouco da área ambiental. Devido às questões nacionais, hoje notoriamente conhecidas como decorrentes da operação “Lava Jato” o projeto no qual estava mobilizado na Petrobras foi descontinuado durante o ano de 2016 e vi no curso MBE em Meio Ambiente da COPPE uma nova oportunidade de me atualizar e buscar retornar a área ambiental, aonde sinto que as minhas habilidades tanto técnicas como jurídicas me fazem sentir mais realizado profissionalmente.

 

Pergunta 2: Conte-nos sobre a escolha do tema ‘O antropoceno: conceitos e perspectivas em busca de uma sociedade ambientalmente consciente de si’ para seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Quais eram e são suas motivações?

Resposta 2: Eu diria que foi o tema “Antropoceno” que me escolheu porque inicialmente eu tinha o propósito de abordar uma questão na área de recursos hídricos. Aconteceu que durante a aula inaugural do curso, ministrada pelo Prof. André Trigueiro, ele fez uma pequena citação a este conceito, referenciando-o como um novo “hot spot” de discussões internacionais na área ambiental. A atmosfera mágica que se instaurou naquela aula combinada com esse tema ambiental, que é de natureza geológica, fez com que a palavra “Antropoceno” ficasse impregnada na minha mente. Imediatamente fui buscar referências bibliográficas e fiquei muito intrigado ao verificar que não existiam citações de trabalhos acadêmicos produzidos por geólogos brasileiros abordando esse tema, que até o momento vem sendo bem explorado internacionalmente principalmente por cientistas ligados as áreas sociais e climatológicas que militam nas questões ambientais. Esse aspecto me chamou a atenção e foi a energia motivacional inicial desse trabalho. Porém, a medida em que eu lia os artigos internacionais a respeito dos conceitos técnicos-científicos e dos conflitos entre as correntes científicas divergentes, fui tomando consciência da grandiosidade do tema, bem como das profundas questões que o permeiam, não apenas do ponto de vista do que representa a formalização de uma nova idade cronoestratigráfica no continuum do “Tempo Geológico”, mas também em relação aos impactos que essa formalização pode representar na transformação da consciência coletiva de uma sociedade indiscutivelmente marcada pelas extensas e ainda crescentes assinaturas antropogênicas, que comprometem a sustentabilidade do planeta e a sobrevivência das gerações futuras. Nesse sentido, o que mais me motivou no estudo sobre o “Antropoceno” foi perceber que estamos diante de uma daquelas oportunidades históricas no desenvolvimento do conceito de sustentabilidade planetária, isso porque a sua formalização em síntese significará desconstruir cientificamente uma ideologia fortemente enraizada e baseada na tese de que as cronologias humanas são insignificantes se comparadas à escala do tempo e processos geológicos do nosso “Sistema Terra”. É importante esclarecer que essa ideologia infelizmente impede o avanço de políticas ambientais globais visto que ao longo dos anos nossa sociedade vem assumindo riscos ambientais cujas assinaturas são sustentadas até a prova em contrário, de acordo com o princípio “in dubio pro progresso”. Exemplo disso são as discussões científicas sobre o aquecimento global, aonde vivemos uma fase em que a ciência ainda contrapõe a própria ciência, nos aprisionando na dura lei mencionada pelo filósofo social Urich Beck, autor da tese da Sociedade de Risco, pela qual sustenta que enquanto os riscos não forem cientificamente reconhecidos, eles não existem, e sendo assim não serão evitados, mitigados, corrigidos ou compensados.

 

Pergunta 3: Quais as principais questões que implicam na formalização do Antropoceno como nova ‘época geológica’ e por que essa formalização poderá contribuir para uma sociedade mais consciente ambientalmente?

Resposta 3: Essa é uma pergunta importante porque quando começamos a estudar o tema percebemos que a proposta para a sua homologação tem “fugido” um pouco do protocolo padrão de periodização de uma nova unidade cronoestratigráfica mundial, processo esse que naturalmente é caracterizado por fases de discussões técnico-científicas e conceituais, que podem perdurar por décadas. Ocorreu que o termo “Antropoceno”, foi proposto formalmente no ano de 2000 pelo químico Paul J. Crutzen (Prêmio Nobel de Química de 1995), inicialmente em um pequeno boletim (International Geosphere-Biosphere Programme) que foi melhor detalhado em 2002 num artigo da revista Science. Porém, esse fato ocorreu antes de que houvesse qualquer estudo cientifico ratificado pela comunidade geológica internacional comprovando a natureza de uma determinada assinatura antropogênica que justificasse a sua adoção. Aconteceu que, não obstante a esse fato, o termo “Antropoceno” foi amplamente aceito por pesquisadores dedicados às questões sobre as mudanças climáticas, que o popularizaram rapidamente na mídia, bem como através da publicação de vários outros artigos acadêmicos, em razão de Crutzen ter defendido que a espécie humana havia deixado de ser apenas um agente biológico, passando também a ser um “agente geológico” com a capacidade de impactar a biosfera, o ciclo das águas e alguns ciclos biogeoquímicos em escala planetária, motivo pelo qual, segundo ele, seria mais apropriado aplicar o termo “Antropoceno” à época geológica presente, e não mais Holoceno – época geológica interglacial atual que se iniciou cerca de 12 mil anos. Dessa forma, uma das principais questões é que para que o “Antropoceno” seja homologado como a mais nova unidade cronoestratigráfica da história geológica do planeta, se faz necessário em primeiro lugar definir uma secção estratigráfica global, usualmente referida como “golden spike”, que represente a sua fronteira com a época geológica antecessora (Holoceno), Essa questão tomou uma dimensão maior porque atualmente o conceito do “Antropoceno” vem sendo difundido pelos climatologistas, antropólogos, cientistas sociais, entre outros, através de uma macrovisão global da cronologia histórica da humanidade, dividindo-o em três etapas, sendo a primeira etapa correlacionada às evidências antropogênicas decorridas da Revolução Industrial (1800-1945), tendo o uso maciço dos combustíveis fósseis na base energética (“Era Fossilista”) como um dos principais indicadores para delimitação dessa fase, e a segunda, denominada de a “Grande Aceleração”, sendo correlacionada ao período pós-Segunda Guerra Mundial (1945 até os dias de hoje), tendo como indicadores a disponibilidade de petróleo abundante e barato e a explosão do consumo de massa associada a difusão de tecnologias inovadoras, tendo como indicadores o aumento da concentração de CO2 na atmosfera. A relevância do tema fez com que se criasse um grupo de trabalhos denominado de AWG (Anthropocene Working Group) que integra a Comissão Internacional de Estratigrafia (ICS), ao qual, na minha compreensão, caberá o desafio de evitar que o termo “Antropoceno” não se revista apenas de um conceito “holístico” ambiental, Portanto esse relevante desafio compreenderá buscar uma conformidade entre o tempo geológico e a cronologia histórica da existência da humanidade, através da identificação e avaliação de quais registros antropogênicos históricos têm o potencial de deixar registros reconhecíveis em estratos rochosos, cuja composição litológica, conteúdo fossilífero, propriedades geoquímicas e geofísicas poderão ser atribuídas unicamente ao Antropoceno, definindo assim o seu início e limite temporal e espacial na escala de tempo geológico. Respondendo agora a segunda parte da pergunta, o reconhecimento científico e a homologação do Antropoceno incorporando-o como a nova Época Geológica vigente tem repercussões profundas, porque trata-se de um reconhecimento formal que não apenas incorporará uma nova unidade cronoestratigráfica na evolução do planeta, mas significará o despertar da consciência desse poder de “agente geológico” que os seres humanos adquiriram. Assim sendo, estamos diante do nascimento de uma nova perspectiva (ou oportunidade) de consolidação de uma conscientização ambiental mais aprofundada em escala global, já que deixaremos de nos comportar como vítimas, assumindo o papel de um agente causador (que causa a dor) dos nossos próprios males ambientais. Portanto, a homologação do “Antropoceno” é um processo necessário para alcançar o que vem sendo referenciada por diversos autores como a sua terceira fase, denominada de “Antropoceno Consciente de Si Mesmo”. Isso porque esse processo representará, no futuro, o reconhecimento de que houve uma mudança na escala da presença humana no planeta e que essa mudança se manifesta através dos riscos ambientais assumidos e das suas potenciais consequências sobre a sustentabilidade do “Sistema Terra”, Desta forma abre-se um novo caminho para a construção de uma consciência coletiva global mais plena em razão da conquista do conhecimento de que em nossas mãos se encontra um poder real capaz de interagir com as forças naturais desse planeta de uma forma que impeça no futuro o colapso do seu equilíbrio, o que poderá levar ao risco de impactos ambientais irreversíveis, destacando-se entre eles a possibilidade de enfrentarmos à 6ª extinção em massa da biodiversidade planetária, incluindo a nossa espécie.

 

Pergunta 4: De que forma o MBE (pós-graduação executiva em meio ambiente da Coppe) contribuiu para sua vida profissional?

Resposta 4: A minha principal expectativa em relação ao MBE foi atendida, que foi a de me reaproximar novamente da área e do mercado relacionados ao meio ambiente, no qual trabalhei por vários anos, mas que estava afastado desde o ano de 2008. O MBE permitiu a minha atualização com relação aos principais conceitos técnicos e jurídicos ambientais através da transferência de relevantes informações e experiências profissionais que se tornam no dia a dia um diferencial nas nossas atividades profissionais, e nesse aspecto é importante destacar o contato direto com profissionais atuantes, sendo estes representados tanto pelos ilustres professores do curso como também pelos competentes colegas, e hoje amigos queridos, que constituíram a Turma MBE 37.

 

Pergunta 5: Quais são seus planos para o futuro?

Resposta 5: Do ponto de vista acadêmico, quero ainda concretizar um segundo objetivo que adotei ao ingressar no MBE, que era escolher um tema cuja elaboração do TCC permitisse ser uma aproximação para um projeto a ser desdobrado em um doutorado. Nesse sentido a primeira parte desse objetivo acredito ter conseguido, pois o tema “Antropoceno” além de relevante e inovador, permite sua abordagem em várias áreas de pesquisas. Assim sendo, iniciei a fazer contato inicialmente com o corpo docente do Departamento de Geologia da UFRJ, aonde inclusive cursei algumas cadeiras do doutorado como ouvinte ano passado, mas, infelizmente, até o momento, não encontrei nenhuma linha de pesquisa associada a este tema. Como entendo que hoje vivemos restrições financeiras para investimento em pesquisas e que não necessariamente eu tenha que fazer o doutorado num departamento de geologia, me resta agora estar aberto para tentar buscar essa oportunidade em outros departamentos também. Ainda com relação ao TCC estou escrevendo um artigo para buscar uma maior visibilidade do potencial e oportunidades que o tema pode contribuir na edificação de uma sociedade ambientalmente sustentável. Com relação ao lado profissional, estou buscando recolocação no mercado após a minha desmobilização da Petrobras. Nessa lacuna que a crise nos obrigou a enfrentar, ocorreu que o MBE me despertou também uma visão estratégica e empreendedora na prestação de serviços associados às questões ambientais, o que me motivou a constituir uma empresa de consultoria (ALLG Consultoria Ambiental) na qual estou atualmente me dedicando para iniciar suas atividades. Por final, quero agradecer a Coordenação do MBE da COPPE/UFRJ pela oportunidade, através dessa entrevista, de divulgar esse relevante tema ao qual me dediquei no TCC e convido a todos a lerem esse trabalho com carinho. Estrei à disposição para maiores informações pelos meus contatos abaixo.

 

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